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O FUTURO DO ESQUECIMENTO

Apresentação

Reflectindo sobre a possibilidade do surgimento do espanto na contemplação de acontecimentos fugidios que, no limite do perceptível, povoam o nosso quotidiano, o trabalho que Tânia Moreira David apresenta parte de uma vontade de os guardar, mais precisamente, de preservar as suas qualidades visuais e rítmicas, o seu devir interno, na imagem fílmica. A artista convoca uma modalidade de atenção indissociável de um abrandamento do tempo, de uma percepção demorada, desperta para o que acontece tão lentamente que não se deixa ver ou do que passa de modo tão fugaz que fica aquém do visível. Um modo de atender aos afectos concentrados nas matérias e nas forças moventes ao nosso redor, ao que fica no interstício de impressões sensíveis que passam desapercebidas do correr dos dias, no limiar do esquecimento.

A percepção mergulha nesses acontecimentos, não se prolonga espacial ou temporalmente além deles, reverte sempre para o seu interior, para sublinhar determinados traços e camadas. Assim, constitui deles imagens que, a um tempo, retêm e intensificam certas qualidades visuais e temporais – cores que parecem gerar-se do negro profundo, tonalidades cromáticas que crepitam em ritmos variados, brilhos e reflexos dançantes, luminosidade que emerge da escuridão, o compasso regular ou assíncrono do movimento expressivo – em detrimento de outras e, simultaneamente, lhes subtraem quaisquer coordenadas métricas e de orientação, assim como referências temporais exteriores, recortando-os do mundo, isolando-os.

Resultado também de uma experimentação ligada às propriedades expressivas da imagem em movimento – sobreposições, deslocações cromáticas, alterações de velocidade, explorando a luz e a sua ausência –, as imagens visuais e sonoras que compõem a instalação vídeo e a série de imagens fixas acompanhadas por peças sonoras constituem-se, pois, enquanto massa plástica carregada de traços de expressão. Assim, acabam por simultaneamente apagar e recriar o «objecto» concreto de que partiram, apresentando-nos o futuro do esquecimento, melhor, um futuro do esquecimento, entre outros possíveis. Já não faz sentido falar aqui de um prolongamento real ou possível de constituir um mundo exterior, as imagens libertam-se de qualquer referente, juntam-se ao «real» como algo que vale por si mesmo.

São paisagens singulares das quais a presença humana está excluída, assim como qualquer corpo que as reporte ao nosso corpo, que as reverta à escala humana. Nestas paisagens, o negro tem um valor decisivo, ao criar uma relação dialéctica entre a imagem (o que se dá a ver) e a sua ausência (a noite que fica além ou aquém do visívelda visão humana), permitindo-nos vislumbrar o que fica no limiar do visível. E assume variações consideráveis: ora o negro homogéneo do qual que se destacam, num ritmo regular, geometrias luminosas que desaparecem antes de as podermos fixar, nas paisagens com um carácter abstracto; ora o negro denso com várias gradações de onde nasce a matéria e a luz, o negro que adquire o poder de constituição do visível, nas paisagens com uma tonalidade atmosférica, aquática, subterrânea, sideralgeológica, paisagens carregadas dos valores mudos da matéria, poderes anteriores ou posteriores ao que é humano.

Entre estas paisagens parece, pois, existir uma fissura, um intervalo, que as diferencia e reconfigura sucessivamente. É esse espaçamento que faz cada uma delas parecer ser arrancada a uma «noite experimental» e de novo reconduzida a ela. O encontro com estas imagens é, assim, indissociável de um certo desamparo. Ao mesmo tempo, estas imagens exigem de quem as observa uma atenção demorada às suas qualidades pictóricas, às suas camadas ópticas e sonoras, chegando a aflorar sensorialmente os nossos corpos. Perfeitamente singulares, exprimem os afectos da matéria, da própria matéria cinematográfica, a luz e o seu avesso, recriando algo inesgotável, que sucessivamente convoca remissões e alusões, pondo em movimento a percepção, a imaginação e o pensamento.

O trabalho de som de Diogo Alvim, composto para estas paisagens pictóricas, assume o seu desenvolvimento próprio, quer dizer, mantém a sua independência em relação às imagens visuais. O som é, ele mesmo, imagem sonora, mais ainda, faz nascer espaços sonoros com tonalidades minerais, rochosas, metálicas, siderais, habitados por harmonias e percussões que se contrastam, ecos e reverberações que aludem às suas variáveis amplitudes. Na instalação de vídeo, a composição sonora preenche o intervalo negro que separa as situações visuais e o mesmo espaço sonoro atravessa duas paisagens visuais distintas. Em momentos determinados, os enquadramentos sonoro e visual, independentes, encontram-se, coincidem, para depois se soltarem novamente. O intervalo que os separa recria uma comunicação transversal entre as várias camadas sonoras e visuais tecendo entre elas um conjunto variável de ligações – intensificação, intersecção, sobreposição, expansão, contracção, distanciamento – levando a uma reconfiguração sucessiva da escuta e da visão.

Joana Braga

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© 2024 O Futuro do Esquecimento

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